
A morte da fundadora da Pastoral da Criança, a médica sanitarista Zilda Arns, de 75 anos, no terremoto que arrasou o Haiti na última terça-feira, comoveu o Brasil e, em especial, as famílias que têm ou tiveram a vida transformada pelo seu trabalho. Somente em Londrina, são cerca de 8 mil famílias e 10 mil crianças atendidas pelo programa.
“Nossa missão é orientar as famílias”, resume a coordenadora diocesana da Pastoral da Criança da Arquidiocese de Londrina, Maria Brígida Sampaio de Souza. Para dar conta de tanto trabalho, a Pastoral conta em Londrina com cerca de mil líderes, voluntárias capacitadas para visitar famílias carentes e dar orientações sobre saúde, alimentação, educação e cidadania. Além delas, outras 500 pessoas atuam como voluntárias de apoio. “São aquelas que doam uma pequena parte do seu tempo para trabalhar em prol da Pastoral”, explicou.
Em Florestópolis, a caminhada continua
“A doutora Zilda será a inspiração para continuar a caminhada.” A afirmação é de Eunice Vicente Cardoso, 56 anos, que, junto com a médica Zilda Arns, participou da criação da primeira Pastoral da Criança no Brasil, em Florestópolis. Hoje, 45 mulheres estão de luto e choram a morte de sua guia da solidariedade na missão de salvar centenas de vidas entre os recém-nascidos da periferia e da zona rural. Elas são as voluntárias da Pastoral da Criança em Florestópolis, município do Vale do Paranapanema (região norte do Estado), que foi o berço do movimento no País. As lições ajudaram a evitar mortes eram conhecidas, mas pouco utilizadas. Zilda defendia a aplicação rigorosa de vacinas, o aleitamento materno e uma boa hidratação para crianças. Mas dava as orientações de uma maneira infalível para convencer mães e voluntárias: com ternura e dedicação. A morte da médica não deve alterar o ritmo do trabalho da Pastoral. “A doutora morreu trabalhando pelas crianças e doou sua vida pela pastoral. As voluntárias devem tomar esse exemplo e jamais deixar que o trabalho acabe”, disse Nice, como é conhecida a coordenadora do movimento na cidade, há 26 anos. Nestes mesmos 26 anos, a Pastoral alcançou todo o Brasil e mais 20 países das Américas.
O acompanhamento das famílias começa já na gestação. “As líderes visitam as mães para saber se estão fazendo o pré-natal. Depois acompanham o desenvolvimento da criança, controlando a carteira de vacinação, peso, alimentação até os seis anos de vida”, informou. Cada líder atua em sua comunidade, um total de 186 ativas em Londrina.
Apesar de 80% das famílias atendidas serem carentes, Brígida disse que algumas mães, de classe média, procuram a Pastoral para se cadastrarem e receberem as orientações das voluntárias. “Normalmente essas famílias passam por dificuldades espirituais”, contou. A coordenadora explicou que as líderes trabalham também a espiritualidade, independentemente da religião dos pais.
Apesar de todo esforço e dedicação dos voluntários, a coordenadora da pastoral afirmou que as ações contemplam apenas 40% das crianças pobres identificadas pelo Instituo Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Infelizmente não damos conta de atender todas”, lamentou.
Exemplo
Sorte teve Gisele Valdelice da Silva. Com um ano e seis meses de vida, ela não andava, não falava, nem comia. “Nasci muito abaixo do peso”, contou. Vendo a criança tão debilitada, dona Elvira, moradora do mesmo bairro, o Jardim Leste-Oeste (zona oeste), decidiu levar Gisele para casa. “Os filhos dela [Elvira] ficaram assustados. Falavam que eu ia morrer, porque estava muito desnutrida”, relatou.
Ao tomar conhecimento da Pastoral da Criança, dona Elvira se candidatou como voluntária e levou a criança para Florestópolis. “Fiquei quase dois anos numa casa de recuperação para crianças desnutridas”, disse. Caçula, Gisele contou que a mãe biológica não cuidava dos filhos. “Ela gostava de sair, ir para bailes, me deixava sozinha em casa.” Gisele declarou que deve a vida à mãe adotiva e à médica Zilda Arns, pelas ações da Pastoral. “É por causa delas que estou aqui.” Hoje, aos 23 anos, casada e mãe de um filho de cinco meses, Gisele é voluntária de apoio da paróquia São Judas Tadeu.
Para Dirce, trabalho tem que ser feito de “alma e coração”
Dirce Belisario de Oliveira, 54 anos, foi convidada a conhecer o trabalho da Pastoral da Criança de Londrina em 1999. “Comecei como líder no assentamento do Jardim São Marcos (zona sul). Foi muito marcante pra mim. As casas eram muito humildes e a gente tinha que pesar as crianças embaixo de uma árvore”, lembrou. Desde então, a voluntária não conseguiu mais deixar os trabalhos. Já passou pela coordenadoria da paróquia de São Lourenço e hoje é coordenadora de decanato sul, que envolve seis paróquias de Londrina. “Tenho um grande amor pela pastoral.”
Com satisfação, ela lembra de alguns momentos no Jardim São Marcos. “Quando as crianças viam a gente chegando gritavam: ‘lá vem as tias do saco’, porque a gente as colocava no saco para pesar.” Uma vez por mês as voluntárias realizam a Celebração da Vida. “É o dia de checar o peso. As crianças fazem festa”, contou. Para ser voluntário, Dirce disse que é preciso muita coragem. “Temos que enfrentar bandidos. Tem que se entregar de alma e coração ao trabalho.”
Dirce confessa que se esforça para não chorar a morte de Zilda Arns. “Ela foi uma mulher forte e queria nos ver felizes. Se tivesse pelo menos umas 10 pessoas como ela, o mundo seria bem melhor”, declarou.
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